Bebê Natural: por um mundo mais saudável.


O mundo vive um período de resgate do que é natural, tentamos retornar nossa alimentação para formas mais saudáveis e orgânicas, e também estamos revendo a forma de nascer. Muitos já devem ter ouvido a conhecida frase do médico francês Michel Odent “Para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer”, mas quantos de vocês já pararam para refletir profundamente sobre o que ele quis dizer?

Dentre tantos resgates, uma palavra emerge: Respeito. Seu significado, originário do latim, é “olhar outra vez”, ou seja, aquilo que é digno de um segundo olhar, merece respeito. Seu corpo merece respeito? Seu bebê merece respeito? Desde que momento um bebê e sua mãe merecem ser respeitados nas suas escolhas? O respeito é um dos principais valores do ser humano, nem sempre concordamos com as escolhas do outro, mas precisamos não impor nossos valores e julgamentos, é preciso ter respeito pelas escolhas do outro!

Então, retornemos para o que pensa o Dr Michel Odent: estamos lidando de forma desrespeitosa com a saúde das gestantes e seus bebês quando impomos modelos invasivos de assistência ao nascimento, separação mãe bebê na primeira hora de vida, exames desnecessários... A natureza é perfeita, criou um ambiente saudável para ser a primeira casa do ser humano: o útero. Mas nós, seres humanos, estamos sendo desrespeitados desde o primeiro minuto de vida, quando somos retirados de nossas casas, sem estarmos ainda preparados para essa transição. E o que isso implica na saúde e na economia do mundo?

Em 2014 foi lançado um documentário científico chamado “O Nascimento ao Microscópio” (Freedom for Birth), nele é dito que crianças que não nascem via vaginal terão maior risco de desenvolver doenças não transmissíveis como asma, diabetes, obesidade, doenças do coração, alguns tipos de câncer, doenças mentais e doenças autoimunes; e qual o impacto disso na economia? “O Fórum Econômico Mundial e Escola de Saúde Pública de Harvard previram que o custo do tratamento dessas doenças tem o potencial de levar os sistemas de saúde à falência até 2030. Até 2030, quase metade do patrimônio líquido do mundo irá para o tratamento dessas doenças. Isso não é sustentável” (trecho extraído do filme). Assim, vemos que a forma de nascer irá influenciar diretamente a saúde dos seres humanos. Os problemas a curto prazo já são bem conhecidos (problemas respiratórios, dificuldades na amamentação, interferência na vinculação...), mas os cientistas buscam agora provar os problemas a longo prazo.

O Dr. Rodney Dietert (professor de imunotoxicologia da Universidade de Cornell) nos explica que o ser humano tem dez vezes mais micróbios do que células, ou seja, somos 90% microbianos (organismos que vivem em nós: bactérias, fungos, vírus, protozoários) e 10% mamífermos! Daí começamos a refletir como nosso ecossistema está adoecendo, doenças estão surgindo devido a degradação do nosso microbioma. Mas vocês imaginam de onde vem nosso microbioma? Sim, tudo se inicia ainda no ventre materno, mas o nascimento é o momento crítico do plantio de nosso microbioma, e que influenciará na nossa saúde futura. Ele criou a hipótese “The Completed Self”, que se refere ao ser humano ser composto por esses micróbios desde o início da vida.

Após a passagem pelo canal vaginal, o contato pele a pele é a próxima etapa para a transferência dos micróbios, é o momento ideal também para iniciar a amamentação, pois a mãe libera hormônios como prolactina e ocitocina, que ajudarão no processo. Dr Dietert diz que no leite materno há várias coisas que o bebê precisa, como anticorpos e micróbios do tecido mamário, mas também há açúcares (ologossacarídeos), ou seja, no leite humano há carboidratos indigeríveis pelos bebês, mas que servirão para as boas bactérias que estão no intestino do bebê, e isso fará com que elas se multipliquem! Então, nenhuma fórmula é capaz de reproduzir o leite humano, o qual irá nutrir não só o bebê mais a sua comunidade microbiana. Se interferimos nesse processo de maturação da imunidade do bebê, iremos afetarmos o desenvolvimento de seu ecossistema bacteriano, ou seja, seu sistema não saberá distinguir as bactérias boas e maléficas. “Nos dias e semanas anteriores ao nascimento, espécies chave de bactérias se reúnem no seio materno e em sua vagina. Durante o trabalho de parto e no nascimento, um coquetel especial de bactérias é transferido da mãe para o bebê no canal vaginal”, diz o Dr. Dietert.

Dentre as vivencias mais significativas da maternagem, está a amamentação, um ato que gera diversos benefícios físicos e emocionais tanto para a mãe, quanto para a criança. Porém, de acordo com a última pesquisa de prevalência de aleitamento materno nas capitais brasileiras (realizada pelo Ministério da Saúde), há uma porcentagem muito baixa de amamentação no Brasil: 54,1 dias de aleitamento materno exclusivo (AME) e duração mediana de 11,2 meses, contrariando o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (6 meses de AME e continuado até 2 anos ou mais). De acordo com alguns estudos antropológicos, o período natural de amamentação para a espécie humana seria de 2,5 a 7 anos, mas nossa cultura acaba influenciando o desmame precoce, seja por falta de conhecimento, preconceito ou práticas errôneas de condução da amamentação.

Foi pensando no incentivo da amamentação que a World Alliance for Breastfeeding

Action (WABA) idealizou a Semana Mundial de Aleitamento Materno (SMAM), comemorada na primeira semana de agosto, desde 1992. Este ano, o tema da SMAM é: Amamentação: Uma chave para o Desenvolvimento Sustentável. O pediatra Dr. Marcus Renato de Carvalho diz explica que o "Desenvolvimento sustentado é o progresso inclusivo sem deixar sequelas ambientais e sociais. A prática da amamentação, ao contrário da alimentação por fórmulas infantis, é bom exemplo". Assim, convidamos todos para refletirem conosco sobre nossas práticas de alimentação, como estamos cuidando de nossos filhos? Quais os primeiros alimentos que estamos lhe oferecendo? A partir dessas respostas poderemos contribuir, ou não, para o desenvolvimento sustentável de nosso planeta.

Tarsila Leão

tarsila@amama.com.br

*As imagens do texto são da artista chilena Alonsa Guevara.

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