O Impacto Emocional da Cama/Quarto Compartilhado.


Uma colega psicanalista escreveu um texto questionando se era saudável permitir que crianças de 2 a 5 anos dormirem com os pais. Há muitos textos bons sobre cama compartilhada, mas pensei em escrever algumas críticas sobre esse texto da colega, algo mais objetivo, vamos lá!

A psicanalista afirma em seu texto que crianças desta idade não têm sua individualidade amadurecida e que se sentem desamparadas e sozinhas quando acordam na madrugada e não estão com seus pais, concordo com ela, mas aí ela ensina que devemos acolher a criança e levá-las de volta pra sua cama, quantas vezes for preciso. Mas será mesmo preciso? E se a partir desse momento, deixarmos nossos filhos em nossa cama, será mesmo prejudicial para nós e para eles? Deixar o filho passar o resto da noite em sua cama quer dizer que ele não tem espaço próprio na constituição familiar?

A criação com apego, onde a formação de vínculos saudáveis é valorizada, não é o mesmo que superproteção, tampouco irá interferir de forma negativa na formação da personalidade de seu filho, ou o deixará inseguro ou com dependência emocional. Uma criança que constrói um vínculo saudável será segura para afastar-se da mãe, então, não é puramente a “cama compartilhada” que levará seu filho a ser “inseguro, dependente ou desenvolver características autísticas” como disse a psicanalista. Além disso, estamos falando de crianças e um certo grau de dependência emocional é totalmente normal e esperado!

É importante considerarmos todo o contexto para afirmar se a criança está com “excesso de proteção”, pois não será apenas o dormir junto que caracteriza isso! A colega também afirma que “amor e limite” também devem ter a “medida certa”, claro que precisamos mostrar os limites, as regras de nossa sociedade para nossas crianças, mas me recordo do pediatra espanhol, Dr. Carlos Gonzalez, que diz “não há nenhum adulto na prisão ou no manicômio porque seus pais deram afeto demais […] é exatamente o oposto: há pessoas na prisão ou em manicômio porque foram abusadas por seus pais, abandonadas ou humilhadas”.

Também há uma interpretação selvagem da psicanálise quando a colega diz que a cama compartilhada pode ser uma forma de concretizar o complexo de Édipo: "o filho quando dorme na cama quentinha com a mamãe, concretiza um desejo fantasioso de ter a mãe e afastar o pai”. A formação do desejo sexual e da personalidade da criança dependerá de diversas variáveis, afirmar que a cama compartilhada pode interferir nesta formação não está de acordo com uma boa interpretação analítica, a qual precisa levar em consideração o contexto e não apenas um fato isolado.

É importante levarmos em consideração também o contexto cultural de distintas épocas e culturas. Hoje há um incentivo maior à amamentação (que antigamente era até mesmo destinada essa função às amas de leite) e ao trabalho fora de casa das mulheres, então, é realmente mais prático estar com o bebê numa cama ao lado da sua ou até mesmo da sua cama, para manter a amamentação e o contato de uma forma menos cansativa.

Outro ponto levantado pela colega é a interferência da cama compartilhada na relação sexual do casal. Mas isso também vai depender de cada casal, não é mesmo? Ou será que os casais só têm relação sexual à noite e na cama? Claro que podem existir casais que tenham essa prática, mas costumes podem ser modificados e se houver dificuldade, muitos profissionais (sexólogos, psicólogos...) podem auxiliar nesta questão.

Assim, pais e colegas, não precisam ter medos e inseguranças diante da cama compartilhada! Vocês têm amigos adultos que dormem com seus pais até hoje? Acredito que não, pois para todas as crianças saudáveis chegará o momento em que ela vai buscar o seu lugar na constituição familiar, ela irá pedir uma cama só dela. Então, espero que possamos respeitar mais as escolhas conscientes de cada família e informar apenas o necessário (confira abaixo as orientações de segurança para cama compartilhada da API e UNICEF).

*Folheto da API (tradução de Thiago Queiroz)

*Folheto da UNICEF

Quer saber mais sobre a história e evolução da cama familiar compartilhada?

Confiram esse artigo da Andréia Mortensen: https://crescersemviolencia.wordpress.com/2014/03/22/a-historia-e-evolucao-da-cama-familiar-compartilhada/comment-page-1/

Tarsila Leão

tarsila@amama.com.br

#camacompartilhada #criaçãocomapego #psicanálise

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